• Gradualidade e harmonia na Criação

    Posted on agosto 8, 2014 by in Artigos

    BLOCO 1 – CONTEXTUALIZAÇÃO


    Capítulo 4 – Gradualidade e harmonia na Criação

    O cristianismo defende, frente ao antropocentrismo e a mitologia, a posição teocêntrica, que consiste em contemplar o universo como um espelho das perfeições de Deus, e que obedece portanto a um plano belíssimo que tem, como uma de suas principais características, a harmonia. Conhecendo melhor a Criação como um projeto idealizado por Deus, podemos conhecer também melhor quem Ele é.

    De fato, ao iniciar nosso estudo, estamos confrontados a dois métodos de pensamento: analisar a ordem do universo em função do homem, e nela as coisas terão ou não algum valor na medida em que forem “úteis” para o homem; ou analisá-la como um todo criado por Deus em função dEle, onde o homem, longe de perder sua importância, encontra seu justo lugar na hierarquia dos seres criados como aperfeiçoador dos seres inferiores. Nesta última concepção, o homem é subordinado a um plano universal que o transcende; e aqui os anjos cumprem um duplo papel: servir a Deus, e auxiliar os homens no cumprimento de sua missão. Os espíritos celestes fazem em relação aos homens o papel que estes fazem em relação aos seres inferiores. Por isto, a angeologia desborda do plano meramente teológico. Diz Étienne Gilson:

    “A doutrina tomista sobre os anjos não constitui, no pensamento de seu autor, uma investigação de ordem exclusivamente teológico. Os anjos são criaturas conhecidas pelos filósofos; sua existência pode ser demonstrada e inclusive, em certos casos excepcionais, constatada: sua supressão romperia o equilíbrio do universo considerado no seu conjunto. (…) não se pode omitir a consideração de uma ordem inteira de criaturas sem que corra perigo o equilíbrio do sistema 1”.

    De fato, há aqui uma necessidade imperiosa, e ontológica, da existência de anjos. Étienne Gilson explica, com efeito, que a hierarquia dos seres criados é contínua, de maneira que toda natureza de grau superior comunica, no que há nela de menos nobre, com o que há de mais nobre nas criaturas de ordem imediatamente inferior 2.

    Para dar um exemplo, podemos observar como existe entre a ordem vegetal e a ordem animal seres quase “intermediários”, como as plantas carnívoras (por ex: Darlingtonia califórnica, Dionaea muscípula, Drosophyllum lusitánicum, Nepenthes, e muitas outras), que se fecham sobre os insetos que nelas penetram, alimentando-se deles. A vida sensitiva e o alimentar-se de bichos é próprio a animais, não a vegetais. Contudo, estas plantas possuem elementos à maneira de sensores que lhes permitem detectar a presença da presa, e logo em seguida assimilá-los à maneira de alimentação animal.

    Ora, esta graduação dos seres se reproduz a todos os níveis; e entre Deus, puro espírito incriado, e os homens, espíritos criados e unidos a corpos, é necessário que haja uma transição. O Pe. Royo Marín explica isto:

    “Pela perfeição do universo se requer certa graduação nas criaturas, que se aproxime cada vez mais à infinita perfeição de Deus, criador de todas elas. E vemos que há criaturas que só se assemelham a Deus pelo fato de existirem, como as pedras. Outras pelo fato de viverem, como as plantas e os animais; outras em entender imperfeitamente, como o homem; logo parece muito natural que existam outras criaturas puramente espirituais e perfeitamente intelectivas que são os anjos, que se assemelham a Deus tanto quanto isto seja possível a uma criatura. Faltaria algo entre nós e Deus se não existissem os anjos. Faltaria um elo na corrente 3”.

    Mas… tudo isto quererá dizer que só consigo acreditar nos Anjos, conhecer que eles existem, por meio de algo tão pouco consistente como abstrações metafísicas, ou argumentos de conveniência? Não, não… Não se preocupe, graças a Deus, temos mais do que isto, muito mais!… Mas isto já é o tema do próximo artigo. Acompanhe aqui o conteúdo da matéria na íntegra, e continue conosco, até a próxima semana… “sob a proteção dos Santos Anjos”!

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    NOTAS ————————————————————

    1. Étienne Gilson, El Tomismo, p. 213-214.

    2. Étienne Gilson, El Tomismo, p. 217.

    3. Antônio Royo Marin, Conferências, extraído de anotações privadas.


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